C: o que você escreveria se pudesse?
Eu escreveria que estou com frio. Que já me disseram que o gado não sente frio, mas nessa época do ano eles não param de mugir e eu estou com frio. A associação é compulsória. Diria que também estou entorpecida, uma geleza interna mesclada com frustração e exaustão. Olho para ela e tento fazê-la sorrir, me perguntando se ela nota o meu sorriso forçado (quando crescer, vai notar? É meu medo); não porque minto, mas porque me forço a sorrir, assim como me forço a sorrir para todos, porque não quero quebrar o momento. Tento não incomodar, mesmo incomodada (o gado continua mugindo e o ar é trépido). O gato vem pedir carinho, mas não consigo dar mais colo do que já dou o dia inteiro (dói. O corpo também, estou trêmula, vazia de víveres). Ele força o aconchego. Lembro do tempo que não tive para o amarelinho, e então ele foi embora (Debí tirar más fotos de cuando te tuve/
Debí darte más beso' y abrazo' las vece' que pude) o luto que trespassa, não-passa. A trama dos dias é cruel. Seus cordões de fogo se amarram em meus pés e braços como o sling em que seguro a criança pra fazer o que posso o dia todo. A senhora das nuvens de chumbo manda a água que faz tudo ficar quieto (mas meu deus, como eles mugem). A película entre meu peito e o externo evita que todos vejam a ferida e uma falta de interesse pelo fim do mundo (pra quê tantas velas e enlatados, ela perguntou). Sorria sorria sorria, maldita Amy Cuddy. As sombras se apresentam em sonhos, como as lãs das ovelhas de fogo. Eu coleto e coleto e coleto mas não íntegro. Kintsugi. Espectro na própria casa. Eu leio e leio e leio mas não internalizo. Limpo e me limpo, (olimpo, lindo) Tanto gris. Mas as cinzas... As cinzas. Como o cinza dos dias, mesmo quando mornos. Mas vamos celebrar, não é mesmo. Que o amor...
(Tempo bom, tempo ruim)
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